Share |
11/11/2014

A ciência contra a fome

Tetra Pak
Superinteressante

O mundo ainda não tinha um bilhão de habitantes quando Thomas Malthus disse que ia faltar comida. Em 1798, o economista britânico previu que a humanidade estava condenada. Felizmente, Malthus estava errado: má distribuição à parte, temos mais hoje do que podemos comer. Mas teremos o suficiente até 2050, quando passaremos de 7 para 10 bilhões de humanos dividindo o planeta?

A questão não é só que a população vai aumentar, mas que as pessoas tendem a enriquecer, ou seja, devem comer (e desperdiçar) mais - a ONU calcula que, apesar do aumento de 33% na população, a demanda por alimentos vai disparar em 60%. A OCDE calcula que o consumo anual de carne passe de 43 kg por terráqueo para 68 kg - o que também vale para legumes, verduras, frutas, raízes e outros vegetais.

Dispomos dos mesmos recursos naturais (talvez até menos) de quando éramos apenas um bilhão de pessoas. Além de solo rico e água potável serem finitos, vale lembrar que fertilizantes, fundamentais para a produtividade, são limitados e não renováveis. Se o fósforo, talvez o mais importantes deles, não for usado com sabedoria, podemos esgotar as reservas mundiais em 60 anos. Some à equação a necessidade de preservação do ambiente e a disputa pelos mesmos recursos para a produção de tecidos e biocombustíveis. Será que, 250 anos depois, a previsão de Malthus vai se realizar? Calma.O apocalipse malthusiano pode ser evitado. Agradeça às ciências - agronomia, piscicultura, genética, até arquitetura.

Andares alimentares

Para alimentar mais alguns bilhões de terráqueos, o lema entre cientistas e empresas é: produzir mais com menos. Para começar, é possível verticalizar a produção. Estamos falando de pilhas de miniestufas, prédios-horta que ocupariam muito menos área territorial para produzir muitas variedades de verduras e hortaliças. Em cada andar dessas estruturas poderia se criar um ambiente controlado, permitindo desenvolver todo o potencial genético das culturas e mais colheitas por ano.

Com o clima e manejo perfeitos, é possível triplicar a produtividade de rúcula, quadruplicar a de pimentão. Com tomates, a performance vai de 9 kg/m² para 80 kg/m², 800% de aumento. Uma verdadeira "fábrica" de hortifrútis. A técnica é muito cara para culturas que exigem maior escala, como grãos; ainda assim, pesquisadores brasileiros colheram 15 toneladas de trigo em um hectare (10 mil m2) controlado, quando a média é de apenas duas toneladas. Outra solução nesse sentido é a hidroponia, em que o vegetal é "plantado" em uma solução nutritiva de água e sais minerais num ambiente fechado. (Quando a solução é vaporizada, chama-se aeroponia.) A absorção de nutrientes é facilitada, as plantas crescem 50% mais rápido e costumam ter o dobro de volume - 4 m² podem render 30 pés de alface por mês. No Japão, a técnica já é utilizada para produzir vegetais até no subsolo de restaurantes.

O prédio também pode ter inquilinos animais. Isso porque muitas pesquisas indicam que o gado e as aves se desenvolvem melhor quando suas "condições de vida" são mais confortáveis. O exemplo literal de mais com menos é a produção moderna de peixes. As tilápias em aquários chegam a ganhar 1 kg vivo com apenas 760 gramas de ração. A explicação é que elas também comem algas microscópicas que surgem espontaneamente nos reservatórios.

Mas nada supera o aproveitamento do que a ONU classificou como "uma excelente alternativa para alimentação da humanidade", "rica em nutrientes, barata, ecológica e deliciosa": insetos. Com técnicas apropriadas, traças, besouros e gafanhotos poderiam ser produzidos em casa, em recipientes de até 1 kg, garantindo 10% da dieta. Antes de virar a cara, saiba que estamos falando só do filé, o 1% comestível do conjunto de 1,5 milhão de espécies.

Genes contra a fome

As fundações dos edifícios-fazenda do futuro estão surgindo nos laboratórios de hoje. A seleção genética é uma velha aliada, permitindo que animais gerem mais carne com menos ração. Exemplo: em 1970, para engordar 1 kg, um suíno precisava comer 4 kg; hoje, precisa comer 2 kg; até 2030, será apenas 1,6 kg. Tudo isso pela escolha dos exemplares com melhores genes, sem qualquer hormônio.

Também já se investe muito em nutrigenômica, a interação entre a nutrição e os genes. Funciona assim: técnicas de mapeamento em nível molecular identificam os genes de interesse comercial que estão "desligados" e, a partir dos nutrientes certos, eles são ativados. Os animais alcançam o peso ideal comendo 20% menos ração - produzida com 75% menos minerais. Isso melhora a quantidade e a qualidade da carne produzid.

A próxima aposta é a nanotecnologia, que poderia ser uma alternativa aos transgênicos. Em vez de inserir um gene exótico na planta, a técnica permitiria "colar" nanopartículas no DNA sem alterá-lo. Isso possibilitará enriquecer os alimentos com vitaminas e outros nutrientes. Além disso, reduziria o uso de defensivos agrícolas - com um combate muito mais eficiente a doenças e pragas. Essas intervenções em nível atômico trariam benefícios na produtividade em geral, na minimização de perdas e na redução do impacto ambiental.

Cultivo controlado urbano. Novas técnicas de produção. Modificação em laboratório. Insetos e algas no cardápio. São avanços que podem resolver o problema de alimentação do mundo, mas que também podem trazer consequências inesperadas. A Revolução Verde deixou um legado de danos ambientais, exagero no uso dos agrotóxicos e modelos de produção que estão se esgotando. Da mesma forma, esta nova revolução também pode trazer obstáculos inesperados. Faz sentido trazer produção a agrícola e pecuária para metrópoles onde a falta de água já é um risco real? Soluções podem trazer novos problemas. Mas, com ou sem edifícios-horta, uma solução é necessária. Ou vai faltar comida no prato.