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23/04/2015

Com água do mar na descarga, Hong Kong dá exemplo de conservação hídrica


Pensamento Verde

Mais de 80% da população recebe gratuitamente água do mar para utilização em descargas. Iniciativa surgiu para combater crise hídrica na cidade há 50 anos

abia que uso de água potável para descarga representa 30% do consumo doméstico mundial? E ainda, este número pode chegar a 70% em edifícios comerciais segundo a ONG britânica Waterwise. Para amenizar este desperdício, Hong Kong conseguiu implementar um sistema que utiliza água do mar para descarga em mais de 80% dos lares do país. A iniciativa existe há mais de 50 anos e foi motivada justamente pela falta de água na ilha, algo semelhante ao que ocorre atualmente no Brasil.

Segundo o especialista em gestão ambiental da USP (Universidade de São Paulo), Pedro Luiz Côrtes, em entrevista à BBC Brasil, “é uma solução que preserva a água tratada para usos mais nobres e ajuda a garantir a oferta para o consumo humano”.

Reforçando a ideia, Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida da ONG WWF-Brasil alerta: “É um absurdo ainda usarmos água limpa em descargas. Isso provavelmente ainda não mudou porque não tínhamos enfrentado uma crise, mas deveríamos importar esta tecnologia de Hong Kong”.

Como funciona?

Primeiro, é importante saber que além do período de seca enfrentado no passado, Hong Kong não possui reservas hídricas subterrâneas de grande expressão para atender seus habitantes. Grande parte da água potável vem da China através de dutos subterrâneos. A ideia de usar água do mar é justamente para amenizar a dependência do recurso hídrico potável na ilha.

Diariamente, cerca de 5,75 milhões de habitantes de Hong Kong utilizam água do mar em suas descargas. Para tal, o governo investiu na construção de 35 estações de transmissão e mais de 1,5 mil quilômetros de tubulações para captar a água do mar, levar à estação e distribuir aos moradores. Outra ponto importante dentro do escopo da crise hídrica: os preços da água potável estão congelados no país desde 1995 e a água do mar não é cobrada.

Segundo o Departamento de Fornecimento de Água de Hong Kong, a água do mar é mais barata porque não precisa do mesmo tratamento da água doce, já que não será utilizada para consumo. Basicamente a água é filtrada para retirar grandes impurezas e desinfetada com hipoclorito de sódio ou também cloro. Depois é enviada para reservatórios e na sequência distribuída. O descarte é feito no mesmo local da água doce para que ambas passem por tratamento.

Iniciativa premiada

Em 2001 o programa de captação de água do mar foi premiado pelo Chartered Institution of Water and Environmental Management, uma instituição do Reino Unido que conta com profissionais, empresários ligados a questões ambientais e cientistas.

Segundo o professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, Chen Guanghao “usar água do mar em descargas economiza não só água, mas também energia. Requer a metade da energia usada na produção de água potável, dez vezes menos do que no tratamento de água de esgoto e cem vezes menos do que o processo de dessalinização.”

Funcionaria no Brasil?

Pedro Luiz Côrtes defende a aplicação da mesma tecnologia na costa do Brasil “Poderia começar em áreas urbanas que estão se expandindo, com a criação de novos bairros já com esta infraestrutura. Seria necessário que os novos edifícios tivessem duas linhas de transmissão de água”.

No entanto, se isso já estiver previsto no projeto, não gera quase nenhum custo a mais para a construtora. Todavia seria preciso criar uma rede de tubulações e estações para abastecer pontos mais afastados e até mesmo edifícios. Além deste desafio, vale ressaltar que atualmente o custo para realizar tal feito ainda é muito elevado. Porém, segundo o vice-presidente de conselho da Federação de Indústrias de Hong Kong, Daniel Cheng “bastaria haver um incentivo governamental, por meio de incentivos fiscais à infraestrutura necessária”.

Côrtes complementa “Grandes consumidores, como shoppings e universidades, poderiam compartilhar o custo da construção destas novas linhas de distribuição”.