Share |
26/08/2013

Quem vai cuidar do lixo?


Planeta Sustentável

Precisamos fechar o ciclo: usar, reciclar e reutilizar. Essa é a única saída para conseguirmos lidar com as enormes montanhas de resíduos produzidas pelo homem todos os dias no planeta. E para começar, não devemos mais utilizar a palavra lixo: o certo é resíduo - há resíduos sólidos e úmidos. O resto é rejeito, o que costumamos chamar de lixo orgânico. Os sólidos devem ser encaminhados para a reciclagem e o orgânico para compostagem ou biodigestão. O caminho parece ser simples, mas ainda está longe de ser alcançado. Em nosso país, 40% do lixo doméstico ainda têm como destino os lixões e os aterros sanitários. "O Brasil tem uma sociedade que joga fora, não recicla", afirmou o economista e sociólogo da USP, Ricardo Abramovay, conselheiro do Planeta Sustentável e autor do livro Muito Além da Economia Verde, primeiro com o selo do Planeta.

Abramovay foi um dos debatedores da Roda de Conversa sobre Resíduos Sólidos, promovida pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), este mês, em São Paulo. Além do economista, participaram da conversa Rispah Besen, doutora em saúde pública e especialista no assunto, e Ronei Alves, presidente da Central das Cooperativas do Distrito Federal. O encontro contou ainda com a participação da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que também faz parte do conselho diretor do IDS.

Para Rispah Besen, que integrou estudos e debates da Polícia Estadual de Resíduos Sólidos de São Paulo, houve um salto enorme com a implantação da nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), mas ela apresenta dificuldades para ser colocada em prática. "Alguns prazos não foram realistas. Segundo a lei, os lixões devem acabar no país em 2014. Como fazer isso?", questionou. A especialista defende o reconhecimento e a valorização dos catadores de lixo no Brasil. Segundo ela, a maior parte do material reciclável coletado hoje é realizada por eles. "Os catadores precisam ser remunerados dignamente pelo serviço prestado", afirmou. Outro problema levantado por Rispah é a destinação do lixo orgânico. Só em São Paulo, 50% dos resíduos coletados são orgânicos e no Brasil apenas 3% deste tipo de lixo é usado em compostagem.

Outro ponto importante da nova lei dos resíduos sólidos é sobre a chamada política da Logística Reversa (LR), que obriga alguns setores da indústria a se responsabilizar pela coleta dos bens fabricados e comercializados. Abramovay deu exemplos de setores da economia que já cumprem de maneira bem sucedida a norma, como os fabricantes de pneus e embalagens de agrotóxicos. "As indústrias se organizaram e implantaram um serviço para a coleta destes produtos". O grande problema é que a política brasileira especifica que itens como pilhas e lâmpadas, por exemplo, sejam coletados pelo produtor. "Como fazer isso quando o descarte é feito pelo consumidor em casa", questionou.

O economista também comentou como grandes empresas globais, como Ikea, Coca-Cola e Walmart, têm desenvolvido políticas fortes para reduzir o consumo da energia e a produção de lixo. Por parte do poder público, Abramovay citou como em todos os países desenvolvidos que conseguiram reduzir a quantidade de resíduos houve aumento da reciclagem e redução de aterros. Mesmo assim, para ele, a situação mundial está cada vez pior. "Não se trata de contar com a boa vontade de ninguém para realizar mudanças, é preciso dar incentivos para que a indústria pare de produzir besteiras". Uma maneira proposta para minimizar o problema é estimular a economia criativa através da produção de bens a partir de matéria-prima reciclada. Falou-se muito também na necessidade de redução dos impostos sobre estes tipos de bens. Atualmente no Brasil paga-se o mesmo imposto sobre produtos industrializados (IPI) sobre os chamados produtos virgens e aqueles fabricados com resíduos reciclados. Um disparate.

Consumo, aliás, foi um ponto bastante debatido na roda de conversa do IDS. "Simplesmente não é sustentável uma sociedade que produz tanto lixo", apontou Rispah Besen. "A destinação final é o menos importante. Precisamos reduzir o consumo". Com uma história de vida de muito esforço, o catador de Brasília Ronei Alves falou sobre uma mudança total de comportamento das pessoas. Para ele, a solução está na sociedade, na mão do povo. "Precisamos repensar nossas vidas, pensar no coletivo e fazer parte de um novo modelo de sociedade", disse. "Temos que nos reinventar, repensar o consumo".