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16/11/2016

Este empreendedor constrói casas com o que você joga no lixo

Mariana Fonseca
Exame.com

São Paulo – Quem acompanha o mundo do empreendedorismo sabe que novas empresas surgem todos os dias, solucionando problemas que nem imaginávamos ter. Porém, uma nova onda de negócios quer ir além e resolver deficiências que estão na sociedade há muito tempo.

São os chamados empreendimentos sociais: suas ideias de negócio, que aliam lucro com uma missão maior, podem cruzar fronteiras e ajudar outros países que enfrentam problemas similares.

É o caso da empresa colombiana Conceptos Plásticos: por meio da reciclagem de plásticos abandonados por companhias e pessoas físicas, o negócio consegue criar blocos para montar moradias – como se fossem peças de Lego em tamanho real.

Além de ajudar o meio ambiente, a empresa diminui o déficit habitacional e promove melhores condições econômicas e sociais para quem mais precisa – uma situação que é tão parecida com a brasileira que a Conceptos Plásticos pretende chegar ao país em breve.

“O que queríamos não encontramos em outro lugar. Exatamente por isso que fizemos”, resume Oscar Méndez, um dos co-fundadores do negócio.

A Conceptos já foi responsável por construir casas, refúgios e um centro de saúde – e recebeu um prêmio de 300 mil dólares por essa iniciativa de empreendedorismo social.

Como funciona?

A Conceptos Plásticos transforma matérias reutilizáveis em um sistema de construção alternativa para moradias permanentes e temporárias, refúgios, salas de aulas, centros comunitários e outros tipos de edifício.

De acordo com informativo da empresa, isso não só previne a contaminação do ambiente pelo plástico, cujos resíduos são retirados dos lixões, mas também faz com que eles virem materiais de construção necessários para que comunidades de baixa renda possam ter uma infraestrutura mínima de habitação.

O processo de transformação dos plásticos recebidos em blocos de construção dura cerca de três dias.

Primeiro, a Conceptos Plásticos recebe diversos tipos de plástico. Os pedaços maiores são moídos e então uma máquina mistura os plásticos com alguns aditivos – como se fosse uma receita culinária. Ainda de acordo com o negócio, o plástico é um material resistente a terremotos, enquanto os aditivos fazem a peça ser resistente a incêndios.

Em uma máquina de extrusão, a mistura é derretida para que fique homogênea. A seguir, essa mistura aquecida é colocada em um molde, que gerará uma peça de construção após o esfriamento – o tal “bloco de Lego”.

Hoje, a Conceptos Plásticos trabalha apenas com a reutilização de plásticos. Outros materiais, como pneus, ainda têm um custo muito alto de reutilização e a ideia é oferecer os melhores preços de moradia possíveis, diz Méndez.

Se for uma casa de apenas um andar, ela poderia ser feita integralmente com esses blocos de plástico reutilizado. Para mais de um andar, porém, também é necessária uma estrutura metálica.

A armação da casa leva cerca de quatro dias, se quatro pessoas ajudarem na obra – ou seja, o processo todo dura cerca de uma semana, da fabricação até a moradia pronta para morar. Méndez ressalta que a própria família pode montar a moradia, desde que conte com alguma supervisão durante esse processo.

Ao todo, a Conceptos Plásticos já construiu 1.600 m²: três grandes refúgios, que atenderam 240 pessoas; oito moradias; e um centro de saúde para a organização Cruz Vermelha.

“Estamos licenciando mais um projeto em Cartagena e um acordo com o governo da região de Santander, ambos na Colômbia”, conta o empreendedor.

O negócio também realiza a venda dos módulos para pessoas e empresas, mas não faz encomendas com design personalizado: as moradias são vendidas padronizadas, em módulos de cerca de 40 m². Portanto, quem quiser ampliar o espaço pode comprar mais um módulo e uni-lo à estrutura anterior.

“Temos um departamento comercial que se dedica a vender o sistema construtivo. Por outro lado, está o braço social que envolve as empresas de plásticos para poder subsidiar a construção de moradia. Atuamos das duas maneiras, mas hoje negociamos mais com empresas com responsabilidade social, fundações e ONGs do que com particulares, principalmente por nossa mudança de modelo de negócio”, explica Méndez.

O valor cobrado por cada moradia depende da quantidade de plástico usado. Uma moradia de 40 m² custa uma média de cinco a seis mil dólares (cerca de 16 mil reais a 19 mil reais, pela cotação atual). Segundo a empresa, o valor é 30% mais barato do que os sistemas tradicionais de habitação voltados para comunidades rurais.