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22/06/2014

Paraíba do Sul, um rio que desperta para sua importância

Tetra Pak
Envolverde

O Paraíba do Sul é o caudatário da vida em uma extensa região que desde os tempos do Império tem importância vital para o Brasil e serve como elo entre as duas maiores regiões metropolitanas da América do Sul. Além disso, é o manancial de água que abastece cerca de 15 milhões de brasileiros em três estados. Nos últimos tempos tem sido foco de um intenso debate político em relação à partilha de suas águas, mas sem a contrapartida de garantir a qualidade e a quantidade da água que corre de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro.

Esse debate burocrático, travado em gabinetes longe das encostas da Mantiqueira, serra que a tudo assiste, não leva em conta a necessidade de preservação e recuperação de matas e áreas de recarga do rio e de seus afluentes. Para reverter esse quadro a organização Corredor Ecológico Vale do Paraíba reuniu cerca de 80 pessoas, em 31 de maio, no campus da Univap, em São José dos Campos, para dialogar e propor caminhos para uma ação efetiva de recuperação da qualidade e volume das águas do rio Paraíba do Sul.

Com a participação de organizações como a SOS Mata Atlântica, TNC (The Nature Conservancy), Agência Nacional de Água, Comitê de Bacias do Paraíba do Sul, INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e do Instituto Ethos, o seminário “O Futuro do Presente das Águas do Paraíba do Sul” conseguiu reunir atores já engajados em diversas militâncias relacionadas às causas ambientais e sociais da região para lançar foco na questão central, o rio. Para José Luciano Penido, presidente do Conselho da Fibria e conselheiro da organização Corredor Ecológico, a qualidade da gestão da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul se reflete diretamente no desenvolvimento social e econômico da região. “Empresas que atuam na região precisam de garantias em relação ao recurso, caso contrário migram para regiões onde o abastecimento seja estável”, explicou. Isso, segundo Penido, se reflete diretamente na manutenção da qualidade de vida na região, que depende de bons empregos, que por sua vez precisam de pessoas com boa formação e vivendo em ambientes saudáveis. “É um círculo virtuoso”, explica.

Penido falou a uma plateia com cerca de 200 pessoas sobre o trabalho que o Corredor Ecológico vem fazendo com a interligação de manchas florestais na região, uma forma de preservar fauna e flora local. “Já plantamos 600 campos de futebol de florestas e vamos chegar a 6 mil hectares, o que permitirá a interligação de 160 mil hectares de florestas”, explicou. Para ele isso vai significar mais qualidade de vida, mais água e mais desenvolvimento econômico para o Vale do Paraíba.

O pesquisador do INPE, Gilvan Sampaio, fez uma palestra de inspiração na abertura do seminário, onde alertou para alguns dados já comprovados em relação às mudanças climáticas, como a redução da frequência de dias frios na região sudeste do Brasil, assim como o aumento de noites e dias quentes. Ou seja, as temperaturas mínimas e máximas estão mais altas com forte impacto sobre a atividade agrícola e sobre a presença de insetos vetores de doenças como a dengue. Sampaio destacou que as chuvas estão diminuindo no inverno e aumentando no verão. “Tempestades não ajudam na preservação dos mananciais, porque as enxurradas arrastam sedimentos e comprometem as calhas de rios e represas”, explicou o pesquisador. Ele contou que chuvas maiores do 50 mm praticamente não existiam antes dos anos 50 em São Paulo, e que chuvas com essa intensidade aconteceram 22 vezes na região de São José dos Campos entre 1970 e 1985 e que em 2010 chegou-se a 45 eventos desse porte.

O seminário prosseguiu com a realização de duas mesas de diálogos, a primeira com o tema “Preservação e produção das águas do rio Paraíba do Sul”, medida pelo jornalista Julio Ottoboni, e a segunda sobre “Ações e diretrizes voltadas para a conservação”, com a mediação de Sergio Esteves da AMCE Negócios Sustentáveis. Ao final o gerente de políticas públicas do Instituto Ethos, Caio Magri, buscou consolidar tudo o que foi dito com a formação de um Grupo de Trabalho para propor ações concretas de preservação e uso sustentável das águas do rio Paraíba do Sul. A condução dos trabalho foi da jornalista Maria Zulmira, da Planetária, que atuou como mestre de cerimônia, e o evento teve como patrocinadores a Fibria e o banco Santander.

Para o diretor de mobilização da SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, um dos principais problemas é a priorização de obras de infraestrutura em detrimento da realização de trabalhos de preservação e contenção da degradação das áreas de proteção e recargados rios. “Os 5 metros previstos no novo Código Florestal não garantem nada, sequer dá para planta uma árvore”, explica. Para ele é importante que as cidades da região avancem em direção a uma garantia de preservação de ao menos 30 metros nas margens dos rios como forma de garantir a qualidade das águas.

Uma das iniciativas consideradas importantes para a reversão do cenário de degradação é o Pagamento por Serviços ambientais, tese defendida por Samuel Barrêto, da TNC. Para ele as questões de segurança hídrica, segurança alimentar e segurança energética estão interligadas e o grande desafio á conseguir mostra isso para a sociedade de forma a construir um grande pacto para a proposição de ações. “A Cantareira perdeu 70% de sua cobertura florestal nos últimos anos e o avanço da degradação continua”, disse. E alertou para a necessidade de ações que consigam escala no diálogo com a sociedade.

Foram feitas muitas críticas ao código florestal e à gestão ambiental em todos os níveis, mas uma coisa boa foi lembrada. José Luciano Penido lembrou que um dos fatores de degradação é a insegurança fundiária em diversas regiões e que o Código Florestal aprovou o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que permite a construção de um banco de dados sobre todas as propriedades brasileiras. “Desde que implantado em todo o país”, alertou Mário Mantovani.