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05/01/2014

Uma montanha que só cresce


Planeta Sustentável

Nos últimos anos, com certeza ficamos mais ricos. A afirmação do engenheiro Nelson Domingues, presidente da Ecourbis Ambiental, uma das concessionárias responsáveis pela coleta de lixo na cidade de São Paulo, vem acompanhada de preocupante constatação. "Lixo é reflexo de poder aquisitivo e consumo. Pela quantidade e pelo tipo de resíduo gerado, é possível ter uma noção da economia de uma cidade", explica Domingues.

Enquanto diz isso, estamos no topo de uma verde colina, de quase 160 metros de altura, a cerca de 30 quilômetros do centro de São Paulo, na divisa com os municípios de Mauá e Santo André. Do alto do morro, pisando na grama, assistimos ao voo de carcarás, quero-queros, bem-te-vis, falcões peregrinos, entre outras aves. Mas não estamos em nenhuma área preservada da Mata Atlântica. Sob nossos pés há enterradas 29 milhões de toneladas de lixo. "Isso nos faz refletir sobre nossos hábitos e sobre a sociedade de consumo em que vivemos", observa o engenheiro.

Equivalente à altura de um prédio de 40 andares, essa "montanha", com uma área 500 mil metros quadrados, é o aterro sanitário desativado Sítio São João. De 1992 a 2009, ele recebeu uma média de 175 mil toneladas de lixo por mês, geradas por 4,5 milhões de pessoas (que habitam 1,2 milhão de domicílios) das zonas sul e leste da capital paulista. Mesmo fora de operação, o que está abaixo de nós continua vivo. A relação entre o que compramos, levamos para casa e consumimos, ainda que efêmera, não se encerra nos grandes sacos pretos ou azuis em que colocamos o que sobrou nem quando os caminhões de coleta passam pela rua. "Os resíduos não desaparecem em um passe de mágica. Por causa da decomposição, são necessários monitoramento e controle geotécnico do aterro 24 horas por dia, pelos próximos 30 anos, para que não haja contaminação do solo, do ar e do lençol freático", explica Domingues. Marcos georreferenciais mostram a movimentação do solo e medidores indicam a pressão e a temperatura interna do aterro. Da deterioração dos resíduos ali depositados são drenados cerca de 21 milhões de litros de chorume (líquido proveniente da decomposição de matéria orgânica) por mês, um pouco menos da metade em relação à época em que o aterro estava em atividade. Além disso, 20 mil metros cúbicos de metano são extraídos por hora para gerar energia na maior usina termoelétrica do país, a Biogás. Ela funciona desde 2007 e por ano produz 200 mil megawatts, suficientes para abastecer uma cidade de até 400 mil habitantes.

Como São Paulo - maior metrópole da América do Sul e a décima cidade mais rica do planeta - não para de crescer e de gerar lixo, soluções e espaços para aterros precisam ser criados para destinar as atuais 18 300 toneladas de resíduos geradas todos os dias. A cada dia, um paulistano produz cerca de 1,5 quilo, segundo dados da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb). Cerca de 12 mil toneladas diárias se originam nos domicílios (residências, condomínios e escritórios) e nas 871 feiras livres, realizadas todos os dias. O restante é resultado da varrição de ruas, do recolhimento de entulho descartado nas vias públicas e dos serviços de manutenção da cidade. Para dar conta de parte disso, ao lado do Sítio São João, desde 2010 opera a Central de Tratamento de Resíduos Leste, um aterro sanitário, com 1,1 milhão de metros quadrados, que, de segunda a sábado, recebe a visita de 250 caminhões - cada um deles deposita cerca de 30 toneladas de lixo.

É preciso percorrer 35 quilômetros, a partir do centro da capital paulista, para se chegar ao maior aterro sanitário da América do Sul, localizado em Caieiras. Destino do lixo criado por quase 6,5 milhões de pessoas que residem no centro e nas zonas norte e oeste de São Paulo, a Central de Tratamento de Resíduos Caieiras, administrada pela concessionária Loga, ocupa uma área de 3,5 milhões de metros quadrados e tem capacidade para receber 36 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Quando foi aberta, em 2002, esperava-se que ela operasse até 2020, mas já recebeu 15 milhões de toneladas de lixo - média de 7 mil toneladas por dia. "O que temos agora não será suficiente no futuro, já que 98% dos resíduos sólidos vão para os aterros da cidade. A quantidade crescente de lixo tem reduzido os anos de vida útil dos aterros sanitários. Além disso, torna-se cada vez mais difícil achar outros espaços e os custos para a instalação de novos aterros aumentaram muito", alerta Silvério.

O que se vê em São Paulo é reflexo da realidade brasileira. Nas outras 26 unidades da Federação, a quantidade de resíduos também explodiu. Calcula-se que, hoje, o Brasil seja o quinto maior gerador de resíduos sólidos urbanos do mundo. Em 2012, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), produzimos cerca de 62,7 milhões de toneladas - 1,2 quilo por pessoa ao dia. "O que mais preocupa no Brasil é saber como as tendências de consumo vão afetar o futuro, pois a geração de lixo cresce à mesma proporção do poder de compra da população", diz o grego Antonis Mavropoulos, CEO da consultoria em resíduos sólidos D-Waste e chefe do comitê científico e técnico da Associação Internacional Solid Waste, entidade independente que promove sustentabilidade no tratamento de resíduos em mais de 90 países.

Nesse cenário, a meta do governo federal parece ambiciosa: extinguir todos os lixões e aterros controlados até agosto de 2014. Espera-se atingir esse objetivo por meio da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Entre os mecanismos previstos na regulamentação, exige-se de cada cidade planos de gestão para os resíduos sólidos que incluam, além da destinação para aterros sanitários, a coleta seletiva de recicláveis para que só uma fração daquilo que não pode ser aproveitado chegue a esses destinos.

Como o problema da gestão do lixo está diretamente relacionado ao consumo, há quem acredite que a política nacional é uma ótima oportunidade para redesenhar como são oferecidos os produtos e serviços. É o caso do bioquímico Mateus Mendonça, consultor da Giral Viveiros, que, nos últimos sete anos, tem criado programas de gestão inclusiva de resíduos e reciclagem para gigantes da indústria, como Votorantim, distribuidora de bebidas Diageo e Natura Cosméticos. "Em geral, o consumidor paga pelo produto e por sua embalagem. Mas, se a simples venda da embalagem após o consumo não remunera o serviço de sua recuperação, precisamos pensar em novas formas de negócio", diz Mendonça. "Por que vender uma geladeira nova e não apenas seu sistema de refrigeração? Eu poderia muito bem ter incluído nos custos o aluguel da plataforma física", comenta.

Seria uma saída interessante. O maior problema, porém, ainda reside na cultura do consumo desenfreado, sem que as pessoas se conscientizem de que os recursos utilizados na produção de todos os bens são finitos. Onde vamos parar? Calcula-se que, até 2030, em todo o mundo, serão aterradas cerca de 3 bilhões de toneladas de resíduos, uma quantidade supervaliosa de material que não terá todo seu potencial aproveitado e, um dia, terminará em imensas montanhas de lixo como a do Sítio São João, em São Paulo.

Para responder à pergunta, a pequena cidade de Houthalen-Helchteren, na Bélgica, lançou um projeto inovador. Lá, um aterro fechado na década de 1980, com 16,5 milhões de toneladas de resíduos, começou a ser escavado. "Esperamos reciclar até 45% do que está lá e converter o restante em energia suficiente para abastecer 100 mil casas por mês", conta Patrick Laevers, diretor do Machiels Group, a proprietária do local. "Na Europa ocidental, não há mais espaço para a exploração de matérias-primas, como carvão, gás natural, petróleo, ferro e cobre, exceto pelo que foi importado e agora está esquecido nos aterros. Não há outra escolha a não ser trazer tudo aquilo de volta", diz Laevers. No Brasil, ainda não se pensa nisso, mas pode ser uma ótima solução para um futuro próximo.?