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08/11/2013

Tim Jackson: ‘precisamos de cidadãos, não de consumidores’


Planeta Sustentável

Há alguns anos, as ideias do economista inglês Tim Jackson seriam tratadas como mais um devaneio ecológico. Mas a crise financeira veio e o atual modelo econômico foi colocado em xeque. Professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, no Reino Unido, e ex-assessor do governo inglês, Jackson defende a tese polêmica de que o avanço do PIB nos países ricos não resulta em qualidade de vida para as pessoas. Pior: consome recursos naturais de extrema importância para o futuro da humanidade.

Quais são as evidências que dão sustentação à sua tese de que crescimento econômico não é importante?
A maior parte das sociedades persegue o crescimento econômico, mas raramente nos perguntamos se isso está resultando em prosperidade, qualidade de vida e comunidades mais fortes. Esse modelo está claramente destruindo o planeta e consumindo recursos naturais vitais para o futuro. Em resumo: pelo modelo atual, buscamos algo que nos cria mais problemas.

Existe algum país que já tenha testado o novo modelo que o senhor propõe?
Há economias que não cresceram e prosperaram, mas não por escolha própria. É o caso do Japão. Mesmo em um país que não cresceu por uma década, houve aumento de expectativa de vida e melhora nos indicadores sociais.

Viver sem crescimento não implicaria menos consumo e, portanto, menos empregos?
Nos Estados Unidos, nos anos 40 e 50 do século passado, houve um esforço da indústria em convencer as pessoas de que elas são o que compram. E se estabeleceu que sem consumo não há emprego e sem emprego não há consumo. Precisamos pensar num mundo em que os indivíduos sejam cidadãos, não consumidores.

Abrir mão de crescimento em países ricos pode até ser discutível. Mas o que dizer dos emergentes?
Nos países ricos, é cada vez mais difícil repetir os níveis de crescimento do passado. Já nos emergentes há uma grande correlação entre expansão da renda e aumento do nível educacional. Meu ponto é que os países ricos deveriam abrir mão do crescimento em favor dos mais pobres. Já os emergentes poderiam se desenvolver de uma maneira muito mais sustentável.

Os países europeus estão crescendo pouco, e o que se vê é uma forte crise social.
É um erro econômico e moral o que os países europeus têm feito. Premiaram os arquitetos da crise, com o resgate dos bancos, e tiraram dinheiro de investimentos sociais.

Qual a principal lição que podemos tirar da crise?
A obsessão pela produtividade no trabalho não faz sentido. No caso de médicos e professores, o objetivo não deveria ser atender o maior número de pessoas, e sim melhorar o atendimento. No final, isso criaria mais empregos.

Esse modelo ainda seria capitalismo?
Já experimentamos um capitalismo de livre mercado que funcionava bem. O problema é que o mercado financeiro tem se comportado como um cassino. É esse o tipo de capitalismo que não queremos.