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21/03/2015

Por que o norte encheu e o sudeste secou?

Bruna Escaleira
Nova Escola

Para discutir as mudanças climáticas, é preciso analisar escalas geográficas e ação humana

Em 2014, o clima surpreendeu todos os brasileiros. Enquanto no norte e sul do país choveu muito além do esperado, o sudeste sofreu com a seca e o esvaziamento das represas (mostre aos alunos os gráficos de chuva abaixo). O caso mais grave é o do Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de boa parte da cidade de São Paulo e sua região metropolitana.

Para 2015, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) previu chuvas ligeiramente abaixo da média nas regiões Norte e Sul e precipitações um pouco acima do normal nas regiões Centro- Oeste e Sudeste. Mas até meados de janeiro, a situação não era animadora. Pelo contrário: em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, as temperaturas bateram recordes, choveu pouco e longe dos reservatórios. A possibilidade de racionamento de água e energia nos grandes centros urbanos é cada vez mais concreta.

A sugestão é começar pela escala regional, pois é nela que estão os fatores que geraram as mais nítidas alterações climáticas (veja o infográfico abaixo) . Os meteorologistas concordam que as chuvas de verão não chegaram à Região Sudeste porque uma bolha de calor de alta pressão "estacionou" sobre ela no verão do ano passado. Neste ano, há indícios de que o fenômeno esteja se repetindo. Geralmente, uma massa de ar quente tem baixa pressão atmosférica. Nesse caso, o contato dela com um fluxo de ar frio favorece a formação da chuva. Mas essa bolha tinha alta pressão, o que impedia a aproximação de ventos úmidos, já que o ar flui de áreas com mais pressão para outras com menos pressão.

Ninguém sabe explicar ao certo o que causou a formação dessa bolha e por que ela estacionou ali. Para investigar as hipóteses, é preciso mudar para a escala global. Uma possibilidade é propor aos alunos uma pesquisa em jornais e revistas sobre a situação do clima no planeta. "Vale lembrar que é preciso ter cuidado quando a mídia anuncia causas impactantes para alguma catástrofe. Desconfie, pois pode haver sensacionalismo ou explicações de não especialistas", alerta Adriana Olivia Alves, professora de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Não é simples abordar esse assunto quente com a turma. Primeiro, porque nem mesmo os cientistas têm certeza sobre o que está acontecendo (veja o quadro na página seguinte). Segundo, porque o tema é complexo. "É preciso deixar claro que o fenômeno ocorre em três escalas distintas: local, regional e global. É fundamental delimitar cada uma delas e mostrar como elas se influenciam", afirma Sueli Furlan, professora de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

A umidade regional ameaçada

1. Umidade do mar O sol evapora a água do mar. Esse vapor é atraído para o continente pela baixa pressão atmosférica da floresta e vira chuva sobre a Amazônia.

2. A floresta atua As árvores amazônicas absorvem parte da água da chuva e bombeiam à atmosfera ainda mais água em seu processo de transpiração. O fluxo de vapor ganha volume.

3. Paredão rochoso O vento leva as nuvens e o vapor de água da floresta como um rio voador em direção aos Andes, mas ele não consegue ultrapassar a cordilheira e ruma para o centro-sul do país.

4. Bolha quente No centro-sul, a massa de ar quente no verão tem barrado o ar úmido do norte do país e as frentes frias que vêm do sul. Resultado: chove bem menos que o esperado.