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21/08/2017

Por que é preciso falar sobre o iceberg gigante da Antártida?

Leticia Fuentes
Veja

Um gigantesco iceberg de 5.800 quilômetros quadrados (área igual a quatro vezes a cidade de São Paulo) e mais de 190 metros de espessura se desprendeu de uma plataforma na Antártida entre 10 e 12 de julho. Agora, segundo uma análise divulgada nesta quarta-feira, o enorme bloco de gelo está se fragmentando, e ao menos 11 pedaços já foram identificados. Apesar da formação de icebergs ser um evento comum e natural, os cientistas estão acompanhando atentamente o enorme bloco de gelo, principalmente por causa dos sérios impactos locais e até globais que ele poderia causar.

Batizado de A68, o bloco de gelo de um trilhão de toneladas que se desprendeu da plataforma Larsen C não é o maior da história. Segundo o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, coordenador do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor de Geografia Polar e Glaciologia na instituição, o maior iceberg de que se tem notícia até hoje foi formado na Antártida em 1986, e possuía assustadores 210 quilômetros de comprimento por 91 quilômetros de largura (mais de 19.100 quilômetros quadrados). Então, por que um bloco de gelo com pouco mais da metade dessa área está chamando tanta atenção dos pesquisadores?

1. Descarga de gelo no oceano

A maior preocupação dos cientistas é que a fragmentação da plataforma Larsen C possa afetar a velocidade das geleiras que estão ali, levando a sérias consequências ambientais. Como explica o glaciologista Fernando Paolo, pesquisador do Instituto de Geofísica e Física Planetária da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, as geleiras são como enormes rios de gelo que seguem em direção ao mar. As plataformas, por sua vez, têm o importante papel de regular a velocidade desses rios. Se uma plataforma perde uma parte grande da sua área, a capacidade de controlar o fluxo da geleira é reduzida, e mais gelo acaba sendo descarregado no oceano, o que desestabiliza todo o continente.

2. Aumento indireto do nível do mar

A formação de um iceberg não influencia diretamente o nível do mar, uma vez que as plataformas já estão flutuando sobre a água e seu rompimento não altera a quantidade de gelo presente ali, mas pode levar a um aumento de maneira indireta. Segundo Simões, o maior risco é quando as plataformas perdem tanta área – seja pela formação de icebergs, seja pelo seu derretimento – que uma quantidade muito grande de gelo continental vai para o oceano, por causa da aceleração das geleiras. Considerando que a Antártida é coberta por um manto de gelo com 13,6 milhões de quilômetros quadrados (1,6 vez o tamanho do Brasil), em camadas que podem chegar a 3 quilômetros de espessura, se todo o gelo da Antártida derretesse o nível das águas poderia subir até 60 metros, causando inundações em diversas cidades costeiras.

3. Histórico de desaparecimento

Não é a primeira vez na história recente que uma plataforma se rompe na Antártida. Larsen A e Larsen B, que hoje não existem mais, também passaram por esse processo, em 1995 e 2002, respectivamente. Em ambos casos, cientistas começaram a notar a formação de pequenas lagoas na superfície, indicando que o gelo estava derretendo. “Essas lagoas vão aumentando e a plataforma vai ficando cada vez mais frágil, tornando mais fácil o surgimento de outros icebergs. Isso se chama hidrofracturação”, explica Paolo. Segundo o pesquisador, na época, os cientistas encararam a formação de lagoas superficiais como uma evidência de que o fenômeno havia sido influenciado pelo aquecimento global. De tanto derreterem e se fragmentarem, ambas plataformas desapareceram. “Desde o momento em que Larsen B começou a se debilitar, levou apenas duas semanas para que ela se desintegrasse completamente”, conta. Simões também chama atenção para o fato de que cada vez mais plataformas estão se rompendo na Antártida, inclusive mais ao sul do continente, a parte mais fria. “Desde 1991 e 1992 temos observado um aumento na formação de icebergs, principalmente por causa das alterações ambientais, como mudanças no vento, correntes marinhas mais quentes e aumento na temperatura”, afirma.

4. Relação indeterminada com aquecimento global

Ainda que o aquecimento global não tenha sido indicado pelos estudiosos como a principal causa do rompimento na plataforma Larsen C, alguns cientistas ainda não descartam a possibilidade de que ele tenha desempenhado algum papel no evento. Ao contrário de Larsen A e B, na plataforma C não foi encontrada nenhuma lagoa superficial ou sinais de derretimento anormal. Porém, segundo Simões, há vários indicativos de que o clima na Antártida de forma geral foi muito afetado pelo aquecimento global, principalmente no que diz respeito às correntes de vento e na temperatura das correntes marinhas, que estão cada vez mais quentes. Por isso, é possível que as mudanças climáticas tenham acelerado a ruptura.

5. Obstáculos flutuantes

As últimas imagens de satélite do iceberg depois dele se soltar de Larsen C indicam que agora o bloco de gelo está se fragmentando. O maior pedaço chega a medir 13 quilômetros de extensão – e, assim como os demais, pode viajar pelas das correntes marinhas a qualquer parte do mundo. “Os fragmentos vão parar nas correntes mais quentes, em direção ao norte, e acabam derretendo lentamente”, afirma Simões. Segundo ele, os blocos de gelo podem viajar longas distâncias antes de sumir completamente. Um pedaço do maior iceberg do mundo já foi encontrado flutuando no Uruguai. No entanto, em relação à possibilidade de que um desses blocos entrasse na rota de alguma embarcação e provocasse uma colisão desastrosa, como ocorreu em 1912 com o navio Titanic, tanto Simões quanto Paolo concordam que seria pouco provável. “Não é como naquela época. Hoje em dia temos tecnologia para localizar icebergs desse tipo, dificilmente algo parecido com o Titanic aconteceria”, diz Simões.




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