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20/06/2013

Pesquisa traz dados inéditos sobre emissões de carbono na exploração madeireira na Amazônia


Instituto Ciência Hoje

Talvez a mesa de um escritório de luxo. Ou o assento de uma privada chique. A madeira amazônica – extraída legal ou ilegalmente – já conquistou diversos mercados pelo mundo afora. Essa riqueza bruta de nossa floresta equatorial tem sido matéria-prima para contendas políticas e ambientais que estão longe do fim. Desmatamento, biodiversidade, ciclo hidrológico, patrimônio genético... São infindáveis os temas em pauta. E um deles vem conquistando notória atenção: emissões de carbono.

Em seu mestrado defendido na Universidade de São Paulo (USP), a arquiteta Érica Ferraz de Campos contabilizou que, para cada metro cúbico de madeira processada da Amazônia, algo entre 6,5 e 24,9 toneladas de dióxido de carbono (CO2) são lançadas à atmosfera.

A estimativa é inédita. Pois Campos calculou as emissões de carbono ao longo de toda a cadeia produtiva da madeira – incluindo a derrubada das toras, o transporte às serrarias e a destinação aos centros consumidores.

Há ainda um agravante: toda a cadeia produtiva dessa indústria é baseada em combustível fóssil – principalmente o óleo diesel que alimenta a sede de máquinas como motosserras, tratores e caminhões (importante lembrar que essa dependência não é exclusividade do setor madeireiro; atire a primeira pedra o setor econômico que independe do petróleo para existir).

“As emissões de CO2 da madeira amazônica, mesmo em caso de exploração legal, não podem ser desprezadas”, diz Campos. “Estimamos que essa atividade respondeu por 3,5% a 13,1% do total de emissões brasileiras em 2005.”

Dado que chama a atenção é o altíssimo nível de resíduos que sobram a partir das toras derrubadas floresta abaixo. Explica-se: para cada 100 toneladas de madeira bruta, em média, apenas 11 são aproveitadas para o mercado, enquanto 16 são resíduos de processamento (pedaços, cascas, pó de serragem) e 73 apodrecem na própria floresta (árvores mortas, tocos, galhos, enfim, pedaços inúteis para o comércio). “Há claramente um desperdício do potencial do produto”, garante a pesquisadora da USP.

Predação em números
Campos acredita que a exploração de madeira amazônica ainda acontece predominantemente de forma ilegal – e por isso é difícil dispor de estatísticas transparentes.

Em recente artigo, o engenheiro florestal Alexandre Almeida, da Universidade de Brasília, não traz melhores notícias: “A maior parte da produção madeireira da Amazônia é considerada predatória ou oriunda de desmatamento”. Ainda segundo o pesquisador, “a produção dita ‘sustentável’ advém, em grande parte, de planos de manejo deficientes”.

Em 2010, o Serviço Florestal Brasileiro (SFB), em parceria com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), lançou o relatório 'A atividade madeireira na Amazônia brasileira: produção, receita e mercados'. É o mais completo levantamento já feito sobre a atividade madeireira na região.

Os dados mostram que as principais zonas de exploração concentram-se em três estados: Pará, Mato Grosso e Rondônia. Em 2009, foram arrancados da Amazônia 14 milhões de m3 de madeira em tora. Receita aproximada: R$ 5 bilhões.

Segundo o relatório, esse número é resultado de uma “forte retração na produção madeireira da Amazônia Legal”. Pois, antes da década de 2000, chegava-se com facilidade à casa dos 30 milhões de m3 anuais.

O estudo aponta três fatores para explicar essa redução: melhora dos mecanismos de monitoramento e fiscalização ambiental, substituição de madeira nativa por madeira de reflorestamento e redução das exportações em função da crise econômica mundial.

Falando em exportações, destaca-se hoje que os grandes consumidores da madeira amazônica são os próprios brasileiros (79%). O estado de São Paulo é o maior ‘cliente’. A Amazônia é a terceira principal região produtora de madeira tropical do mundo – atrás apenas de Malásia e Indonésia.