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21/09/2013

Conhecimento sobre mudanças do clima no Brasil ainda tem lacunas


G1

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional elaborado pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) traz conclusões preocupantes, como a de que a temperatura no Brasil pode aumentar de 3 ºC a 6 ºC até 2100, o que poderia afetar a produção de alimento e de energia no país. Mas também revela que existem lacunas nas informações sobre impacto ambiental e mudanças climáticas no país.

Durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas, especialistas do painel observaram que há poucos dados em relação ao impacto ambiental exercido pelas indústrias no país. A falta de ferramentas precisas para medir tanto a devastação dos biomas quanto as mudanças oceânicas em decorrência do aquecimento global também foi mencionada no evento.

Para Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa e coordenador do grupo de trabalho do PBMC que avaliou "impactos, vulnerabilidades e adaptação às mudanças climáticas", faltam dados principalmente em relação aos desastres ambientais provocados pela atividade industrial.

“O grande problema que identificamos com o relatório é que não tem um local onde você consiga ter acesso a essas informações”, diz Assad. Ele afirma que seu grupo de trabalho esperava que as informações sobre emissão de gases pela indústria pudessem ser obtidas no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o que não ocorreu.

“Tem uma lacuna, mas ainda há vários relatórios que precisam ser compilados de uma maneira mais profunda para poder avaliar melhor a emissão da indústria”, acrescenta o pesquisador. Ele acrescenta que iniciativas de redução da emissão de gases de efeito estufa pelas indústrias devem focar na melhoria da eficiência energética, ou seja, na otimização do uso das fontes de energia.

A falta de instrumentos de precisão para medir o impacto das atividades humanas nos biomas brasileiros foi mencionada durante a conferência pela pesquisadora Mercedes Bustamante, diretora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do grupo de trabalho do PBMC que avaliou a questão das "mitigações às mudanças climáticas".

“A Amazônia é, hoje, o único bioma cujo desmatamento é controlado por satélite”, observa Mercedes. Os outros cinco biomas brasileiros – Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa – apesar de sofrerem, proporcionalmente, uma devastação maior do que a Amazônia, não contam com esse tipo de controle de alta precisão.

De acordo com o pesquisador Moacyr Araújo, membro do PBMC e do Laboratório de Oceanografia Física Estuarina e Costeira (Lofec), também não há no Brasil um sistema de observação mais consistente para avaliar as características oceânicas que estão sofrendo alterações devido às mudanças climáticas.

Clima e sociedade
O evento abordou ainda a interação entre as questões climáticas e a sociedade. Para Mercedes, é preciso integrar, cada vez mais, cientistas do clima e cientistas sociais. “Olhando para a questão dos transportes, por exemplo, estamos analisando a emissão de gases, mas também a questão social envolvida”, afirma, mencionando os protestos recentes que ocorreram no país, desencadeados pela precariedade dos transportes.

Os transportes foram apontados pelos especialistas como um setor que precisa de grandes mudanças com o objetivo reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Tanto o transporte dentro das grandes cidades - com o estímulo dos meios coletivos em detrimento dos veículos individuais -, quanto o transporte de mercadorias pelo país, hoje prioritariamente rodoviário.

Para os membros do painel, é preciso estimular alternativas como o transporte aquático, por trens e por veículos elétricos ou híbridos. De acordo com o pesquisador Emílio La Rovere, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), medidas do governo como a redução do IPI dos veículos e o controle do preço da gasolina representam uma contradição em relação às iniciativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.