Share |
31/10/2014

Aquecimento global pode levar a invernos mais frios

Tetra Pak
O Globo

A ideia contraintuitiva de que o aquecimento global pudesse levar a invernos mais frios acaba de ganhar novo embasamento teórico. De acordo com estudo recente, o declínio do gelo marinho do Ártico nos mares de Barents e Kara nas últimas décadas dobrou as chances de haver invernos mais rigorosos na Eurásia. Os cientistas, que publicaram a descoberta on-line na “Nature Geoscience”, afirmaram que a perda de gelo pode afetar a circulação global de correntes de ar e levar a ventos gelados que sopram por longos períodos.

A pesquisa suporta vários estudos anteriores publicados ao longo dos últimos anos, que também indicam uma mudança no clima de inverno sobre a Eurásia. No entanto, os cientistas japoneses que realizaram o estudo mais recente disseram que é improvável que o efeito de resfriamento dure para além deste século. O aumento das temperaturas globais acabará por anular qualquer refrigeração localizada causada pela perda de gelo do mar Ártico, embora eles disseram que não é possível prever quando isso vai acontecer.

Masato Mori, da Universidade de Tóquio, e colegas do Instituto Nacional do Japão de Estudos Ambientais e do Instituto Nacional de Pesquisa Polar, realizaram 200 simulações de computador da circulação atmosférica global ligeiramente diferentes, baseadas em medições reais do gelo marinho feitas desde 2004, período que houve anos de alta e baixa cobertura de gelo marinho nos mares de Barents e Kara.

Eles descobriram que o declínio no gelo do mar estava associado com um padrão de “bloqueio” nas correntes de ar atmosféricas de alta altitude. Esse bloqueio se tornou duas vezes mais provável em anos de baixa de gelo marinho e favoreceu o transporte do ar gelado do Ártico para o sul e oeste sobre a Europa e Ásia.

- Este efeito contraintuitivo (...) faz com que algumas pessoas pensem que o aquecimento global parou. Não parou. Embora o aquecimento médio da superfície tem sido mais lento desde 2000, o Ártico tem passado por aquecimento mais rapidamente por todo esse tempo - afirmou Colin Summerhayes, emérito associado do Instituto de Pesquisa Polar Scott, em Cambridge.

De acordo com o professor Jennifer Francis, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, um dos primeiros pesquisadores a fazer ligação entre a perda de gelo marinho e alterações na corrente de jato, o novo trabalho, “sólido e convincente”, apoia, junto a outros estudos recentes, a existência desse mecanismo particular.