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30/05/2013

Um outro olhar


planetasustentavel.abril.com.br

Várias pesquisas apontam a falta de interesse dos alunos como um dos principais empecilhos para a melhoria dos índices de aprendizado. Em um levantamento da FVC - Fundação Victor Civita com 600 professores, a indisciplina - que faz crianças ou adolescentes não prestarem atenção - e a falta de motivação das turmas surgem em primeiro e em segundo lugares no ranking dos maiores problemas encontrados em sala de aula. Só depois vêm a ausência de participação dos pais, a escassez de material didádico e questões de infraestrutura. No entanto, por todo o país, é possível achar professores que não se acomodam nem perdem tempo reclamando. Ao contrário, vão à luta e criam métodos próprios para tornar as aulas mais atraentes e eficazes. Há quem leve os alunos à feira livre para ensinar matemática ou os incite a produzir telejornais como forma de aprender português. Nilson Machado, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, defende que, a priori, qualquer tentativa de envolver o aluno é válida. O essencial, segundo ele, é o professor ter clareza do quer ensinar, ou seja, saber os conceitos que devem prevalecer no final. "Quem tem um porquê arruma um como", resume Machado.

PRECISA FAZER SENTIDO
O professor de português Jorge Cesar Barboza Coelho, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Borges de Medeiros, no município gaúcho de Campo Bom, gosta mesmo de fazer as coisas de modo diferente. Em vez de, como é praxe, planejar as aulas sozinho ou com seus pares, prefere nessa hora se cercar de alunos, com os quais discute o que e como será trabalhado. "Quando os jovens participam do planejamento, ficam mais autônomos e críticos. Talvez por isso muitos professores temam fazer dessa forma", analisa Coelho, que, em 2012, abocanhou o Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação, e o Educador Nota 10, da FVC. Ele nunca perde de vista os alunos nem deixa de ouvi-los. "Nos dias em que vivemos, não podemos mais menosprezar o que a garotada pensa e já sabe", justifica.

Outra de suas convicções é que qualquer conteúdo abordado precisa fazer sentido para as crianças - ou dificilmente elas aprenderão. Por tudo isso, ele decidiu lançar mão de recursos tecnológicos - afinal, eles fazem parte da vida das novas gerações. Um de seus projetos é uma web TV, cuja programação é responsabilidade dos alunos. Eles produzem telejornais e programas sobre temas diversos, que vão de moda e saúde a música pop. Durante o processo, aprendem a organizar ideias, construir argumentações, produzir roteiros e, sobretudo, escrever e falar corretamente nossa língua - uma vez que os conteúdos gramaticais vão sendo ensinados nesse contexto. "Se enquanto preparam um programa é usada uma conjugação de verbo inadequada, a gravação é parada para discutirmos juntos como ficaria melhor", exemplifica o professor.

O VALOR DA TROCA
A tecnologia também virou ferramenta-chave nas aulas da professora Clarice Gil Barreira Camargo, da Escola da Vila, conhecida instituição particular de ensino de São Paulo. Uma das finalistas de 2012 do prêmio da Fundação Victor Civita, ela utiliza amplamente fóruns realizados na internet em atividades de leitura. Nesses ambientes virtuais de troca, criados pela escola, os alunos são estimulados a discutir os livros indicados, o que contribui para aprofundar a compreensão de texto, ampliar conhecimentos e desenvolver argumentação. Uma vantagem é que o espaço virtual possibilita a participação de todos. Até o mais tímido da classe pode desabrochar no fórum, no qual a discussão se dá por escrito, ou seja, não é presencial. "Fazemos esse tipo de atividade porque queremos uma aula mais ativa e que estimule a construção coletiva do conhecimento", diz Clarice Camargo. Mas ela alerta que o professor não deve ceder aos encantos fáceis da tecnologia. "Só vale utilizar o que realmente transforma a aprendizagem."

PALAVRA DE MESTRE
Segundo os quatro professores entrevistados, os pais também podem contribuir para o aprendizado dos filhos. Confira as dicas deles

"Acima de tudo, seja mãe. Isso significa não passar a mão na cabeça deles quando cometem enganos graves e tomam caminhos equivocados. É preciso que, desde cedo, as crianças aprendam a ser responsáveis pelo que fazem e construam o valor da humildade e da honestidade. E sempre peço aos pais que incentivem seus filhos a lutar por tudo o que desejam e que deixem bem claro que eles são, sim, capazes."

Jonilda Alves Ferreira

"Quando eu era aluno, meus pais conheciam todos os meus professores, sabiam os nomes, iam a reuniões de pais, faziam visitas à escola sem aviso prévio, folheavam meus cadernos e ofereciam ajuda nas tarefas. Confesso que não gostava do acompanhamento implacável, mas hoje sei que foi fundamental. Se o pai e a mãe sempre querem o melhor para seu filho, o envolvimento com a escola deve ser pleno e natural."

Guilherme Erwin Hartung

"É preciso acompanhar as mudanças. Há professores que até ficam receosos de inovar porque os familiares são resistentes e supervalorizam metodologias ultrapassadas. Muitos pais ainda classificam o nível das aulas por quanto o caderno ‘está cheio’. Na cultura digital, é um equívoco. Vale questionar quanto o filho se envolve com os estudos e observar se as aulas valorizam seus talentos e possibilitam que surjam novos."

Jorge Cesar B. Coelho

"Uma questão atual é a dificuldade de muitos pais de estabelecer limites claros e de tolerar as frustrações do filho. Mas limites são uma forma de demonstrar amor e passar segurança. Crianças e adolescentes precisam disso para aprender sobre o mundo. Frustrações também são importantes no processo de formação. Permitem que, futuramente, seu filho possa lidar com as adversidades de modo mais equilibrado."

Clarice Gil B. Camargo