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31/05/2013

Sinal verde para a educação no trânsito


Nova Escola

Fila dupla de carros na porta da escola. A confusão na hora da entrada e da saída de alunos é uma regra nos colégios das grandes cidades. O ziguezague no meio da rua atrapalha motoristas e põe em risco a vida da garotada. Acabar com essa falta de segurança pode parecer simples bastaria chamar a fiscalização , mas não é. A solução passa pela conscientização de condutores de veículos e de pedestres sobre suas atitudes. Algumas escolas já introduziram trabalhos nessa área para educar os jovens e, também, alterar o comportamento dos pais no trânsito.

O assunto preocupa autoridades em todo o mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu a segurança no trânsito como tema deste ano da campanha do Dia Mundial da Saúde, comemorado no dia 7 de abril. No Brasil, a Semana Nacional de Trânsito acontece entre 18 e 25 de setembro, este ano com o slogan "O trânsito é feito de pessoas. Valorize a vida".

Trabalho interdisciplinar
Os números no país apresentaram melhora depois que entrou em vigor o Código de Trânsito Brasileiro, em 1997, pegando pelo bolso os maus motoristas. A lei relaciona a movimentação de pessoas e veículos com cidadania e meio ambiente. Determina ainda que o Ministério da Educação adote um currículo interdisciplinar para abordar o assunto, com a ajuda dos órgãos de trânsito de todos os níveis municipais, estaduais e federal , que deverão formar núcleos pedagógicos para incentivar projetos nas escolas.

Qual a melhor forma de ensinar esse conteúdo? O gerente do Centro de Educação de Trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, Jeter Gomes, mestre em Educação, afirma que a decoreba das leis não ajuda: "É preciso destacar os direitos de motoristas e pedestres e fazer com que os alunos trabalhem com situações reais".

Já que a criança é considerada pedestre assim que começa a andar, ela pode desde cedo receber essas informações. "O aprendizado já na Educação Infantil faz com que o aluno cresça com consciência", reitera a coordenadora pedagógica do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Maria Helena Machado. Lembre-se: o trânsito não se resume às responsabilidades dos condutores, mas de todos que se movimentam em ruas e estradas, a pé ou de bicicleta.

Reivindicação cidadã
Na Escola Estadual de Ensino Fundamental João Clímaco de Camargo Pires, em Sorocaba, interior de São Paulo, os professores da 5ª à 8ª série tiveram o apoio do programa Você Apita, da montadora Fiat. A iniciativa tem consultoria da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

No início do programa, os alunos assistiram a palestras sobre direitos humanos, mobilidade, meio ambiente e convivência, ministradas por voluntários da Secretaria Municipal de Transporte, da Defesa Civil, do Rotary Club, da Ordem dos Advogados do Brasil e do Senac. "O trânsito é complexo e, por isso, o ensino sobre ele deve abranger e relacionar todos esses aspectos", justifica a diretora do projeto, a pedagoga Fabiana Marchezi.

Depois dessa introdução, os professores levaram a garotada para fotografar situações reais e conversar com os vizinhos. A falta de sinalização para pedestres em um cruzamento importante próximo à escola surgiu como o principal problema. "É a maior correria para atravessar no meio de tanto carro, ônibus e caminhão", descreve Samantha de Sousa, aluna da 7ª série. Em sala de aula, foram trabalhadas as maneiras de fazer entrevistas e noções de Geografia.

O passo seguinte foi descobrir a quem reclamar e a melhor maneira de pedir providências. Antes de enviar para as autoridades uma petição formal, os alunos organizaram uma passeata em que distribuíram panfletos feitos por eles mesmos. Nesse momento, a turma pôs à prova a aplicação de conceitos explorados em Língua Portuguesa, como objetividade da mensagem e clareza no texto. Em seguida, a escola entrou em contato com os meios de comunicação local para expor a situação. O semáforo ainda não foi instalado, mas para a coordenadora-geral da escola, Rosenilda Bignardi, o projeto cumpriu seu objetivo: "Os alunos aprenderam a lutar pelos seus direitos e, ao menos, estão atravessando a avenida com mais atenção e cuidado".

Curiosidades

  • O Brasil é o quarto país onde mais acontecem acidentes de trânsito e desperdiça com isso 10 bilhões de reais por ano, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
  • Em 1996, ocorriam no Brasil 9,8 acidentes para cada 10 mil veículos. A taxa caiu para 6,2 em 2002.
  • Em 2002, a Unesco apontou os acidentes de trânsito como sendo a segunda causa de morte (15,6% do total) entre jovens de 15 a 24 anos. É também o primeiro motivo de morte por causa externa entre as vítimas dessa faixa etária, segundo a Organização Mundial da Saúde.