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19/08/2016

Projeto incentiva alunos a desenvolver soluções para problemas urbanos


Porvir

Para trabalhar protagonismo e ação social, professor coloca alunos de nono ano para pesquisar e propor soluções para trânsito, abandono de animais e lixo.

"Dei aulas de filosofia para alunos do Colégio ESI São José, de Santo André (SP), por um bom tempo. Num determinado momento, eu, a coordenação e a direção da escola chegamos a um acordo para desenvolver uma atividade na qual os alunos tivessem de fato alguma intervenção na sociedade, na cidade e no entorno deles.

A partir daí, surgiu o projeto de protagonismo. No primeiro semestre do ano, apresentei a eles o que é ser protagonista, o que é intervir na sociedade. Além disso, dei aula de metodologia de pesquisa, de pesquisa científica e de análises quantitativas e qualitativas. Quando voltaram das férias de julho, os alunos se dividiram em grupos e receberam a missão de ir para a rua ou para o entorno de casa ou da escola e encontrar alguma coisa que, de alguma maneira, não os deixasse satisfeitos. A minha pergunta para eles foi “como vocês podem potencializar algum tipo de mudança?”.

Eles foram para a rua, entrevistaram pessoas, pensaram em dinâmicas de trabalho diferentes e propuseram algumas alternativas para problemas que antes eles só viam como “alguém tem que cuidar disso” ou talvez nem tinham reparado na questão.

Em Mauá, que é uma cidade muito próxima de Santo André, existe um lixão. Um grupo de alunos quis falar sobre biogás e a possibilidade da cidade usar a biomassa para produzir energia e gerar combustível para os ônibus. Para isso, eles precisaram procurar um professor de química e outro de economia. Eu passei a ser um tutor. A cada semana, eles iam trazendo informações e nós fomos montando o trabalho."

Outro grupo escolheu falar sobre trânsito. Os alunos ficaram na rua da escola fotografando, filmando e fazendo anotações. Eles descobriram, por exemplo, que a escola tem um fluxo diário de 2500 carros. A partir disso, estudaram formas de reduzir esse grande impacto no trânsito. Já outros alunos resolveram criar um aplicativo chamado “Animais em apuros”, que reúne ONGs, veterinários, serviços públicos e pessoas interessadas na busca por animais desaparecidos. Basicamente, funcionava assim: quem visse um bichinho na rua, poderia tirar uma foto e publicar no aplicativo, que informava toda a rede cadastrada como se fosse um alerta no celular. Essa mensagem ficaria piscando até que alguém fosse socorrer o animal.

Em todos os casos, eu orientei os estudantes a fugir de soluções que respondessem a problemas do senso comum. Expliquei que é preciso pesquisar para descobrir quais são os verdadeiros problemas a serem melhorados ou resolvidos. No caso do trânsito, sugeri que levantassem informações como quantos carros passam na escola por dia, qual é o tipo de infração mais cometida e quantos alunos chegam em cada carro. De repente, 10 carros levam um aluno em cada um, e isso poderia ser substituído pelo transporte escolar. Mas, para propor isso, é preciso analisar uma série de variáveis, como o custo do transporte individual e do coletivo.

Quando a gente fala de formação cidadã, de formar o ser humano para usar a autonomia e causar impacto na sociedade, deve-se oferecer situações em que os estudantes possam de fato desenvolver essa característica. Em um livro ou análise sociológica, às vezes você deixa os problemas da sociedade quase restritos a um laboratório de estudos. É preciso vivenciar os problemas para se interessar por eles. Por exemplo, os alunos têm que sair da sala de aula e fazer mais que um estudo de meio, voltar para casa e escrever uma redação. Nós temos que pensar em alternativas e dar possibilidades criativas a eles."