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17/10/2015

Estruturas e ações para uma escola sustentável


Nova Escola

Salas de aula com iluminação natural, painéis para a captação de energia solar, sistemas para a reutilização de água da chuva, área verde abundante. Essas características não são suficientes para uma escola promover o respeito à natureza (veja o infográfico de um edifício sustentável modelo). Para chegar lá, é fundamental que alunos, funcionários e até mesmo a comunidade do entorno tenham oportunidades diárias de construir novos valores e atitudes. "É preciso iniciar esse processo desde cedo. Não basta falar, fazer atividades e ensinar com livros. É como aprender Matemática: requer prática", diz Lucia Legan, autora do livro A Escola Sustentável, pedagoga e diretora do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ecocentro Ipec), em Pirenópolis, a 120 quilômetros de Goiânia.

Ser ecologicamente sustentável significa apostar numa forma de desenvolvimento que não prejudique o planeta no presente e satisfaça às reais necessidades humanas das próximas gerações. Tal postura se enquadra em outro conceito, o de permacultura, criado em 1970. Segundo ele, o homem deve se integrar permanentemente à dinâmica da natureza, retirando do meio que o circunda apenas o que precisa e devolvendo o que ela própria requer para continuar viva.

Para implantar e manter essa postura dentro da escola, é preciso igualar o discurso à prática. Não adianta falar em classe sobre o combate ao desperdício de água e lavar o pátio com mangueiras ou debater fontes de energia renováveis e manter luzes acesas em locais banhados por luz natural. Essa coerência é a base do projeto ambiental da EE Comendador Joaquim Alves, em Pirenópolis. Ele foi desenvolvido pela diretora, Iolanda José Naves, e sua equipe com a ajuda dos profissionais do Ecocentro Ipec. Antes de abraçar atitudes sustentáveis, os alunos fizeram desenhos e maquetes de argila sobre como gostariam que a escola fosse em termos ambientais. Surgiram ideias que ainda não foram aplicadas, como coletores de chuva, mas também aspirações que já foram concretizadas com sucesso, como a ampliação das áreas verdes. Os alunos de 6º a 9º ano participaram ativamente da elaboração do projeto e da implantação da nova praça da escola, que tem até um banco de terra prensada - onde eles, de comum acordo, decidiram colocar um tabuleiro de damas.

Hoje, faz parte da rotina desses alunos auxiliar professores e funcionários a cuidar de uma horta, manter uma composteira de resíduos orgânicos e cultivar árvores. Iolanda enfatiza a importância de gestos pequenos, porém eficientes, ao contar que não tem estrutura para a captação de energia solar ou eólica, mas isso não impede que todos aprendam sobre energias renováveis. "E todos ficam atentos à questão do desperdício, mantendo luzes desligadas sempre que há a iluminação natural disponível", diz.

Quando o assunto é aplicar ações sustentáveis na escola, um erro comum é tocar no assunto apenas em datas comemorativas. Campanhas de reciclagem também devem ser vistas com cautela, pois promo­ver concursos que premiam quem mais reúne garrafas PET e latas de alumínio, longe de ser uma atitude sustentável, promove o consumo desnecessário. Além disso, ações desse tipo estimulam a criança a separar o lixo só para vencer uma pro­­­va e não pelo motivo verdadeiro, que é a preservação do meio em que vive. Outras ações nada eficazes são passar o conhecimento apenas com conselhos ou projetos tão complicados que acabam abandonados.

Já no que se refere ao prédio, o professor e arquiteto Roberto Alfredo Pompéia, que desenvolve projetos sustentáveis, reforça que o contexto no qual a escola está inserida também deve ser uma prioridade. "Não faz sentido ser estruturalmente sustentável sem respeitar a identidade do local. É muito diferente falar em sustentabilidade em São Paulo, onde podemos construir com tijolos de cerâmica, e no Pantanal, onde os mesmos tijolos levam bastante tempo para chegar e saem bem mais caros", afirma ele.

É preciso considerar também a questão científica da construção, que deve garantir conforto térmico e ventilação. "De nada adianta uma escola ter uma bela fachada envidraçada se a posição das janelas faz alunos e professores sofrerem com o calor, fechar cortinas e ligar aparelhos de ar condicionado", explica Márcio Augusto Araújo, consultor do Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica (Idhea).

Convidar crianças e jovens para pensar sobre questões como as propostas por Márcio pode não mudar o mundo, mas faz diferença no aprendizado. Os educadores da EE Dr. Carlos Guimarães, em Belém, comprovaram isso na prática. "O foco no trabalho com os alunos no ano passado foi pensar numa estrutura mais sustentável para a escola", conta a diretora­ Cristina Arruda. Nem tudo coube no orçamento, como a construção de cisternas. "Mas o encontro da solução, a instalação de quatro depósitos de água com capacidade de mil litros cada um, também partiu dos alunos", conta ela.