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07/07/2016

Esperança por um mundo mais humano


Conexão Planeta

Por que as crianças não brincam ao ar livre? O que elas perdem com isso? Quais são os benefícios evidentes quando elas têm tempo e liberdade para o brincar livre e exploratório na natureza? Por que o desafio de levar as crianças para fora, para que elas tenham encontros não estruturados com a natureza e entre si, parece mais complexo do que uma primeira análise indica? Essas foram algumas das questões que permearam as apresentações do I Seminário Criança e Natureza, que trouxe à tona questões sobre a conexão entre as crianças e a natureza, e a necessidade de trabalharmos para que ela aconteça de fato em nossa realidade urbana, apressada e emparedada.

Profissionais de organizações conservacionistas como WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica e Instituto Semeia, educadores de diversas escolas públicas e privadas, institutos como o Toca, Butantan e Ecofuturo, profissionais da saúde, educadores ao ar livre, representantes do poder público ligados à secretarias estaduais e municipais, artistas, educadores ambientais, agricultores, nutricionistas, advogados, arquitetos, pais e muitos outros, formaram um grupo de mais de 600 pessoas vindas de nove estados do Brasil, que se encontraram em São Paulo e no Rio de Janeiro, pois compartilham o interesse genuíno pela conexão das pessoas, especialmente as crianças, e a natureza.

Nos doze meses que antecederam a realização do Seminário, durante o planejamento dos eventos e do escopo do Projeto Criança e Natureza, percebemos que esse assunto desperta muita paixão e empatia nas pessoas e nas organizações. Percebemos também que o tema criança e natureza está em efervescência no mundo todo. Estamos acompanhando um crescimento exponencial no número de países, pessoas e organizações envolvidas em um grande movimento mundial que sonha reverter décadas de declínio no brincar livre na natureza.

O enorme interesse que o Seminário despertou – tivemos uma procura tão grande que foi preciso encerrar as inscrições em poucos dias – mostra que o Brasil também está dentro desse movimento. Nós também fazemos parte dessa grande onda de mudança e estamos impacientes para fazê-la acontecer em nossos bairros, em nossa comunidade de famílias amigas, dentro da nossa casa (veja os dados do evento no final deste post).

Ainda há muito para avaliar, debater e aprender sobre as causas e os efeitos das barreiras para o brincar livre na natureza – espaço, tempo, telas e medo – e como cada um deles influencia os demais. Os fatores envolvidos variam de território para território, entre culturas, entre idades. É um tema complexo e sistêmico. Nós intuíamos que havia muito sendo feito Brasil afora no sentido de assegurar que as crianças, suas famílias e comunidades tenham acesso à natureza. O Seminário nos mostrou que há muito mais. Foi muito bacana conhecer, ouvir experiências e práticas que acontecem há anos, ou que acabaram de começar, e perceber que há iniciativas incríveis por todos os lados, um monte de pessoas cheias de ideias e projetos fantásticos, um potencial de muitas formas inovadoras e sofisticadas de transformação.

Richard Louv, autor do livro A Última Criança na Natureza e uma das principais vozes do movimento Children & Nature no mundo, esteve presente nos dois eventos e, assim como Louv, eu também estava lá porque a natureza teve um papel marcante em minha infância.

Eu cresci em uma casa com um quintal cheio de árvores que significaram refúgio e privacidade à uma menina tímida e introspectiva. Quando me senti pronta para expandir meus horizontes, tive uma cidade amigável, segura e repleta de áreas suficientemente naturais para minhas explorações e andanças à pé ou de bicicleta. O portão da minha casa só era trancado à noite e eu não precisava contar onde estava ou para onde ia. Só tive a consciência exata do significado dessa infância e sua influência em muitas decisões e caminhos que tomei quando adulta, quando tive meus próprios filhos e percebi que o mundo havia mudado.

Louv tem razão quando, em sua fala inspiradora, afirmou que todos estávamos lá porque, de uma forma ou de outra, na cidade ou no campo, cedo ou tarde, em casa ou fora dela, tivemos experiências marcantes – para alguns transcendentais – na natureza durante a infância. E que não nos conformamos com a possibilidade de que as crianças de hoje não tenham acesso a essas experiências. E sim, o inconformismo é o primeiro passo para a transformação.

Entre os palestrantes brasileiros, especialistas em educação infantil, educação indígena, urbanismo, planejamento urbano e saúde da criança. Cariocas falando em São Paulo e paulistas compartilhando conhecimento e práticas no Rio de Janeiro. Troca fértil entre cidades tão próximas e tão diferentes entre si. Além das falas mais conceituais dos especialistas tivemos boas histórias vindas do campo, incluindo os relatos das práticas do Instituto Moleque Mateiro, do projeto Ser Criança é Natural, do Programa Rede da Vaga Lume e da Outward Bound Brasil.