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16/04/2017

Professora ensina matemática com reciclagem de óleo na zona sul de SP


Folha de S. Paulo

“Matemática de novo?” disse uma aluna da professora Cristiane Lacerta, 37, em uma escola pública do Jardim Gaivotas, no Grajaú, zona sul de São Paulo.

Na época, em 2010, a professora e moradora do Grajaú estava no início da carreira e começou a refletir sobre suas aulas e a situação dos estudantes da região.

“Percebi que ali perto não tinha nada, nenhuma diversão. Era uma escola que abria sábado. Então, a única diversão dos alunos era ir para a escola. E, quando um deles disse ‘matemática de novo?’, pensei que tinha algo errado e precisava mudar”, diz ela.

A primeira atividade para romper a rotina foi a produção de peças de teatro para ensinar matemática. Depois, a professora decidiu unir as matérias de exatas com a conscientização ambiental. Cristiane começou a estimular a reutilização do óleo de cozinha para evitar o descarte incorreto, que entope canos e polui a água.

Os estudantes do ensino fundamental recebem a missão de coletar óleo e informar os vizinhos e familiares sobre as vantagens da reciclagem do resíduo. Por meio desse trabalho, elas aprendem estatística e percentagem. Por outro lado, parte do material coletado é usada pelos adolescentes do ensino médio para fazer sabão nas aulas de física.

As aulas práticas são ministradas até hoje por Cristiane. Em 2016, ela começou a dar aulas na escola estadual Professor Geraldo de Lima, no Socorro (zona sul), e decidiu montar uma empresa fictícia de sabão com as novas turmas. A ideia agradou tanto os jovens que a produção foi além do sabão.

“Fomos procurando meios de tornar nosso projeto maior. Não ficar só no sabão e ter mais coisa para gente reutilizar o óleo”, diz Samantha Cintra, 17, ex-aluna que fez pesquisas e conseguiu produzir velas.

Já Antônio Santana Júnior, 18, teve a ideia de produzir biodiesel e sabão líquido. Entre os experimentos, somente o biodiesel é restrito ao laboratório da escola.

Depois de aprender, os alunos passaram a ensinar pessoas de fora da escola a fazer sabão e velas. A mãe de um deles começou a produzir sabão para vender.

A designer de sobrancelhas Ismailda Nunes, 24, moradora do Grajaú, participou de uma oficina e aprendeu a reciclar o óleo. “Eu jogava o óleo no ralo, mas agora uso para fazer sabão para lavar a louça e o quintal. As velas qeuro fazer para vender”, diz.

“O aluno tem que ter essa conscientização de que ele pode transformar o próprio espaço. Ele não vai conseguir acabar com o impacto ambiental, mas ele precisa minimizar esse impacto”, diz a professora.

Os estudantes contam que foram a lanchonetes pedir óleo, mas descobriram que os donos dos estabelecimentos doam o produto para habitantes das redondezas e recebem em troca de sabão.