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01/05/2017

Gestor conta como é dirigir a primeira escola sustentável da América Latina


Gestão Escolar

“Iniciei minha vida na Educação como professor de Língua Portuguesa na rede privada, em 2000. Naquela época não me imaginava atuando na função de gestor escolar. Mas, após 4 anos, decidi prestar concurso público e minha vida se encaminhou para essa direção. Assumi como diretor aos 29 anos. Imaginem o desafio! Era uma escola regular com três períodos e uma dinâmica que já dava bastante trabalho. Mas, então, veio uma oportunidade: dirigir a primeira escola sustentável da América Latina.

O desafio era imenso. Apesar de já ter refletido muito sobre temas transversais, eu nunca tinha me especializado em sustentabilidade. Além disso, a unidade seria de tempo integral e a demanda de um grupo com o qual você fica durante 10 horas diárias é bem diferente da realidade em que eu estava inserido. Ainda assim, decidi passar pelo processo de seleção, fui aprovado e estou por aqui há cinco anos.

O CE Erich Walter Heine, onde trabalho, foi construído pela empresa alemã ThyssenKrupp [fabricante de elevadores e componentes metálicos para a indústria] com toda a lógica de preservação do meio ambiente. Temos um espaço enorme de compostagem e horta, as nossas torneiras desligam sozinhas, temos placas de captação de energia solar, telhado verde, captação de água da chuva, lâmpadas de leed. Mas nada disso adiantaria se também não estabelecêssemos relações sustentáveis.

No início, essa foi a questão mais difícil. Foram pelos menos seis meses de muita conversa e aproximação com a comunidade interna e externa. Com 200 alunos e uma equipe menor na época, a sensação de pertencimento não era uma verdade para todos. A gestão anterior havia sido complicada, as famílias questionavam não poderem utilizar os espaços como quadra e piscina e, em resposta, apedrejavam nosso prédio.

Optei por começar pela minha equipe docente. Juntos criamos um projeto político pedagógico que tratasse a sustentabilidade como tema transversal. Engraçado que muitos ainda perguntam: como pode a primeira escola sustentável da América Latina oferecer o curso técnico em Administração de empresas? Eu respondo que tem tudo a ver. Esse princípio precisa estar em tudo o que fizermos se queremos ter um mundo saudável para viver. Desse modo, cada professor tem um planejamento estratégico que envolve o assunto. Preservar e respeitar o espaço, por exemplo, é uma premissa trabalhada sempre.

Na sequência, precisávamos fazer com que a instituição fizesse sentido para os estudantes. Desenvolvemos um sistema com grêmio de estudantes e representantes de turma, sendo um professor e outro aluno. Mas eles não são somente grupos burocráticos. Eles têm voz na prática. Aqui, procuramos sempre ouvir os estudantes. Muitos dos projetos que realizamos são ideias dos próprios adolescentes. Um deles é o Padrinho Nota Mil, em que trazemos um abrigo e um asilo por ano para realização de oficinas sobre sustentabilidade.

Assim como nesse projeto, buscamos sempre desenvolver trabalhos que tenham impacto na comunidade em que estamos inseridos, na zona oeste do Rio de Janeiro. Os estudantes já fizeram pesquisa em um rio próximo que acumulava lixo e bichos e, posteriormente, desenvolvendo um plano para que essa realidade fosse mudada. Também já recolhemos 2 mil litros de óleo usado para reciclagem com o apoio das famílias e ficamos felizes de constatar que a quantidade recolhida diminuiu depois de algum tempo por conta de uma mudança nos hábitos alimentares das famílias. Isso demonstra o nível de engajamento dos jovens com a nossa proposta. Hoje, os nossos alunos querem estar na escola. Quando recebemos visitas de pessoas do mundo todo, são os estudantes quem apresentam a instituição para os convidados.

Para aproximar ainda mais a escola com a comunidade, decidimos abrir o espaço no final de semana com atividades. Oferecemos inglês, natação, dança, futebol e capoeira, por exemplo. Isso fez com o que desentendimento inicial passasse. Além disso, fazemos reuniões quinzenais com as duas associações de moradores da comunidade. O muro da escola é baixo, não há grades e ainda assim não sofremos roubos ou depredações. Inclusive, temos muitos funcionários da área de cozinha e limpeza que são moradores da região. Compramos os itens da merenda em um mercado pequenos próximo a escola. Ou seja, temos alinhado as nossas ações sempre pensando no impacto positivo que a instituição pode e deve ter na comunidade.

Atualmente, contamos com 600 alunos, 50 professores, três diretores adjuntos, dois coordenadores pedagógicos e um orientador educacional, além de mim como diretor geral. Pode parecer que o trabalho deve ter aumentado muito com tudo isso de gente. Não vou negar que praticamente não tirei férias nesses cinco anos. Mas a verdade é que, quando equipe, alunos e comunidade acreditam naquele projeto de escola, não tem como dar errado e todo trabalho compensa”

Valnei Alexandre, diretor do CE Erich Walter Heine




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