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15/03/2014

Escondendo o lixo debaixo do tapete

Tetra Pak
Envolverde

Enquanto as luxuosas escolas de samba do Brasil preparavam o grande carnaval do Rio de Janeiro, um humilde grupo percorreu um pequeno povoado argentino para alertar sobre um problema urbano subestimado: o lixo. A província de Córdoba está à beira do colapso sanitário. A 2.300 quilômetros do Rio de Janeiro, o grupo Cor e Alegria, do povoado cordobês de Bouwer, se concentrou aos pés de uma réplica do Cristo Redentor carioca.

Entretanto, a cruz deste lugar de dois mil habitantes é outra. Depois de uma longa luta para fechar em 2010 um lixão a céu aberto que acumulou 12 milhões de toneladas de resíduos, Bouwer está novamente diante do perigo de que outro seja aberto, o que agravaria a contaminação crônica da região. Os 24 milhões de toneladas de lixo que a capital provincial e outros municípios gerarem durante os próximos 30 anos seriam depositados em uma área de 270 hectares, a apenas 600 metros do velho lixão.

Em seus arredores também há restos de uma fundição de chumbo, de uma unidade de armazenamento de resíduos perigosos, um depósito judicial de veículos e pesticidas das plantações vizinhas. A Fundação para a Defesa do Meio Ambiente (Funam) considera que Bouwer “é uma das áreas mais contaminadas da Argentina”. A grande quantidade de fontes contaminantes e as alarmantes taxas de mortalidade infantil e perinatal levaram o município a se declarar em “emergência sanitária”.

Agora o governo provincial se apressa em expropriar dois terrenos para o novo projeto: a área próxima ao castigado Bouwer e outro para instalar uma unidade de transferência perto do povoado Estación Juárez Celman, no centro-norte da província. Enquanto a Cormecor (Corporação Intercomunitária para a Gestão Sustentável dos Resíduos da Área Metropolitana de Córdoba) avalia propostas de 27 empresas (de Argentina, Holanda, Estados Unidos e Brasil) e de universidades para o tratamento do lixo, os que sofrem na própria carne o problema têm algumas respostas.

“Cada povoado deveria cuidar de seu lixo. A municipalidade de Córdoba deveria se ocupar do seu, assim como os demais municípios”, opinou ao Terramérica o intendente de Bouwer, Juan Lupi. Seu povoado produz menos de meio caminhão por semana, enquanto a capital gera 95% do total. Para o biólogo Ricardo Suárez, assessor técnico de Bouwer, o lixo deve ser contemplado desde sua origem. “O nosso problema é enorme”, destacou.