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10/12/2013

Empresas adotam ferramentas para pegada ambiental


Valor Econômico

Vista até recentemente com cautela pelo mercado, temeroso de expor a pegada ambiental de produtos e prejudicar a competitividade, a prática de dimensionar impactos nas diferentes etapas produtivas, desde a extração de insumos ao consumo e descarte final, rompe barreiras e começa a ser incorporada em maior escala pelas empresas. Prova disso foi a criação da Rede Empresarial de Avaliação de Ciclo de Vida, em novembro, reunindo nove corporações de grande porte interessadas em promover a ferramenta e utilizá-la como instrumento de diferenciação para seus produtos.

"A discussão sobre o que é mais sustentável torna-se essencial na tomada de decisão", ressalta Jorge Soto, diretor da Braskem e idealizador da iniciativa. A empresa, um dos líderes na fabricação de resinas, já aplicou a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) para entender os prós e contras das sacolas plásticas e, neste ano, calculou a pegada de carbono do ciclo completo de seus principais produtos. O objetivo é aumentar a eficiência energética, reduzir custos, planejar investimentos e orientar clientes nas escolhas no momento da compra.

No total, 31 estudos desse gênero estão sendo conduzidos na empresa, informou Soto. "A busca por soluções de sustentabilidade está hoje presente em todas as fases, desde as simples atitudes do dia a dia até as decisões mais complexas das empresas", argumenta o executivo.

O antigo tabu se transforma em oportunidade. Minimizar os impactos negativos e maximizar os positivos influencia a cadeia de fornecedores e novos hábitos por parte do consumidor. "Não estamos tirando proveito do diferencial brasileiro e das nossas vantagens competitivas que temos", afirma Soto. A ACV ganha força à medida que é disseminada e reconhecida no mundo, com base em padrões confiáveis que permitam separar o joio do trigo. "Trata-se de uma construção desafiadora que só pode ser feita em rede", enfatiza Fernanda Costacurta, coordenadora de sustentabilidade do Grupo Boticário. "É essencial uma estratégia colaborativa para criarmos uma linguagem comum", concorda Fabien Brones, gerente de impacto ambiental e ecodesign da Natura.

"Devemos atingir fornecedores de maneira padronizada e transparente", acrescenta Maria da Graça Popi, coordenadora do centro de pesquisa da Oxiteno. "O uso da métrica só faz sentido se envolvermos toda a cadeia produtiva, com ganho para a sociedade como um todo", reforça Juliana Seidel, especialista em desenvolvimento ambiental da Tetra PaK, uma das primeiras a aplicar o método no Brasil a partir de estudos com caixas de suco e leite desenvolvidos há 14 anos no Centro de Tecnologia de Embalagem (CETEA), em Campinas.

O instrumento ultrapassa os muros da academia. "Vivemos um marco histórico de uma antiga batalha que esbarrava na inércia do governo e na falta de massa crítica", comemora o professor Gil Anderi, do Departamento de Engenharia Química da Universidade de São Paulo, considerado o "pai da ACV" no Brasil. Ele recomenda: "não só o consumo, mas também a produção deve ser sustentável".

Para André Tachard, analista de sustentabilidade da Embraer, integrante da rede empresarial, estar fora desse processo poderá significar um atraso tecnológico prejudicial aos negócios, principalmente no mercado externo. "O conceito de 'design for environment', inclusive para aeronaves, utilizará cada vez os indicadores da ACV como padrão", argumenta.

"Não se trata apenas de reduzir o ruim, mas de aumentar o melhor", explica Greg Norris, pesquisador sobre tema na Harvard School of Public Health, nos EUA. Ele lembra que o processo começou quando a Coca-Cola perguntou quais os efeitos da substituição das garrafas retornáveis por descartáveis, no final da década de 1960. "Na época, as contas foram feitas com papel, lápis e calculadora manual", ilustra o especialista, ao lembrar que a tecnologia mudou muito de lá para cá, com o desenvolvimento de softwares e bancos de dados. Depois, a EPA, agência ambiental americana, estimulou o uso da prática por mais empresas e o conceito acabou chegando à Europa, sendo incorporado às normas ISO 14.040 e 14.044. "A ACV gera oportunidades de inovação e negócios, além de uma melhor comunicação com o público", completa Norris.

No entanto, a falta de padronização e de um sistema de dados brasileiros é entrave para a expansão no país. "Neste campo, nada se faz da noite para o dia, pois envolve questões de competitividade e conflitos de interesse entre países conforme o grau de desenvolvimento", analisa Haroldo Mattos, coordenador de um comitê que discute o assunto na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). "O Brasil precisa correr com o seu banco de dados, assim como já fizeram vários países, como Singapura e Malásia".

Desde 2002, o país discute como definir uma metodologia própria e montar a estrutura para a realização de inventários ambientais. O conhecimento foi adquirido por meio de intercâmbio com a Universidade de Stuttgart e uma empresa alemã de software, com apoio da Comissão Europeia. "Precisamos de combustível para acelerar esse processo", admite Cecília Leite, diretora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). A instituição coordena juntamente com outras entidades o Programa Brasileiro de ACV. A primeira fase, de definição de uma metodologia apta a ser validada internacionalmente, está concluída.

"Faltam agora recursos para finalizar o banco de dados nacionais, indispensável para os cálculos, e contamos com as informações sobre diferentes produtos e processos, repassadas pelas empresas", diz Cecília. Até o momento, o Brasil realizou apenas o inventário de dados para o diesel.

O tema figurou entre os prioritários para a o futuro da chamada "economia verde", conforme documentos aprovados em 2012 na Rio+20. "A ferramenta tem o apoio do governo, mas precisa estar acessível para pequenas e médias empresas", adverte Mariana Meirelles, diretora de produção e consumo sustentável do Ministério do Meio Ambiente. Os indicadores podem servir de padrão para futuras políticas de crédito e desoneração e também para licitações de obras e compras públicas.