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30/11/2009

Caixinha de Surpresas

Rodney Cardoso
Revista Ciclo - 26/11/2009

Se bem lapidada, ela pode se transformar em várias coisas. Por causa de sua polivalência deveria ser considerada "a embalagem do século". Atualmente, o preço do produto nela embalado varia muito: pode ser encontrado por R$ 2,04, R$ 1,72, R$ 4,48 e assim por diante. Isso porque o fenômeno da inflação interfere no custo. Mas basta abrir a porta da despensa, do armário ou da geladeira e lá estará ela: a embalagem da Tetra Pak. Numa época em que o Brasil dava boas-vindas à televisão e o cinema vivia sua época de glória, nascia, na década de 1950, o recipiente cartonado. Em formato de tetraedro (figura geométrica composta por quatro triângulos eqüiláteros), a nova embalagem foi criada a partir da necessidade de armazenamento de conservação dos alimentos. Hoje, em diversos formatos, quase 50 anos depois, a caixinha longa vida ainda surpreende.

"As pessoas ainda não têm consciência do que a caixa de leite é capaz de produzir no ramo da reciclagem". Esta frase é de Anadelcia Salete Silva de Mello, de 60 anos, que há dez anos passa a maior parte de seu tempo entre os fardos de tetra pak, garrafas pets, papéis e outros materiais recicláveis.

Para a atendente e selecionadora de materiais da Cooperben (Cooperativa de Beneficiamentos) no Guarujá, a melhor forma de chamar a atenção da população para a importância de se reutilizar a embalagem é seguir a receita de São Tomé: ver para crer.

Para isso, Anadelcia pega uma caixinha de leite, rasga um pedaço da parte superior do objeto e aponta as diferentes camadas classificando-as e explicando também os produtos finais do processo de reciclagem: "Fazemos demonstrações da caixinha nas praias e percebemos que as pessoas não estão habituadas a ver o que a gente mostra".

A estrutura da caixinha da Tetra Pak combina três tipos de materiais: papel, plástico e alumínio. Sabendo que os três tipos são recicláveis, fica visível a sua riqueza por disponibilizar três opções de matéria-prima. Só que isso não é o suficiente. Anadelcia explica que é preciso armazenar, no mínimo, 40 fardos de embalagens da Tetra Pak para que as empresas responsáveis recebam o material. Este é um dos obstáculos do processo.

No galpão da Cooperben existem cinco fardos de tetra pak, que tem cerca de 900 quilos. Para chegar à meta de sete mil e 200 toneladas é preciso um ano. Desde setembro, foram recebidos aproximadamente 186 quilos, número pequeno em relação à quantidade de caixinhas jogadas fora diariamente.

"A diferença de preço entre uma latinha de alumínio e a caixinha é muito grande. É daí que surgem os problemas. Uma coisa é valor comercial, outra coisa é valor ambiental e ainda outra coisa é o valor social". É baseado nesta justificativa que o presidente da Cooperben, Marcelo Silva de Mello explica o porquê dos coletores preferirem outros materiais.

Embora ainda seja novidade e a conscientização da população em relação à reutilização das embalagens esteja praticamente com pouca significância, Anadelcia pensa alto. "Imagina se a favela do Morrinhos (no Guarujá) fosse coberta com telhas recicladas..."

Da caixinha à telha

A industrialização do material (como é chamado o processo de reciclagem) separa o plástico do papel e a partir daí cada qual vira um subproduto. São nas fábricas de papel que se inicia a industrialização do material (processo de reciclagem) das fibras de papéis, do plástico e do alumínio, através de um equipamento chamado hidrapulper, parecido com um liquidificador.

Durante o processo, que somente adiciona água, com a agitação do material, as fibras são hidratadas e acabam separando-se das camadas de plástico e alumínio. Após a separação, os papéis são lavados e purificados, podendo ser usados na produção de caixas de papelão e tubetes.

Com o material composto de plástico e alumínio a ação é diferente. Destinados às fábricas, lá são realizados processos de secagem, trituração, extrusão e injeção. Depois disso, o conteúdo é usado para a confecção de peças plásticas como cabos de pá, vassouras, coletores, além de outros.

Outra maneira de se aproveitar o plástico com alumínio é transformando-o em chapa semelhante ao compensado de madeira, que pode ser utilizado para fabricação de móveis, pequenas peças decorativas e até telha. Por meio de outro método, à base de forno de plasma, o plástico também pode virar parafina e o alumínio em matéria-prima pura novamente.




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